
O Esmagamento das Gotas.
Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela agarra com os dentes esquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente, zuf, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que embriaga nesse nada do cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.
(Sim, Julio Cortazar - "Histórias de Cronópios e Famas").
ps do B: Lá fora não está chovendo, mas eu estou numa puta tempestade. E aí, o que faço?!!
Escrito por Bruno F. Goldgrub às 23h02
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(A foto é minha)
O barulho, no meio da manhã ou da tarde...talvez possa ter sido à noite...o quadro desliza pela parede e parte-se em muitos fragmentos,
talvez o prego não tivesse suportado o peso, (....) pouco dele permaneceu. O vidro partido rasgou o papel e a cidade, as ruas, as
estrelas escondidas e a grande lua ficaram dilaceradas em meio às pontas múltiplas que ainda formavam sobre ele um novo e estranho
quebra-cabeça.
Mansamente o desenho escorregou para fora do papel corroído... as estrelas e a lua desabrigava rapidamente tomaram seu lugar no
universo, desobrigando-se finalmente a continuar ocupando o espaço sufocante onde foram enquadradas, constrangidas a
permanecer durante aqueles tempos sombrios, numa moldura onde não cabiam. Suas cores novas se fizeram dos pigmentos cegos
que antes habitavam sem saber aquele cosmos que acabara de se criar.
A cidade e as ruas expandiram-se, escapando sem alarde, tudo através de uma arquitetura invisível da qual tudo e todos que a elas
pertenciam puderam participar, num silêncio único, compartilhado.
Então ela acordou de manhã e partiu pra nunca mais regressar.
(Esse texto f** é da Regina Fabbrini, my madre! Espetáculo)
Escrito por Bruno F. Goldgrub às 12h29
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Fui ver Cazuza hoje.
O filme é bom, melhor do que eu esperava depois de ver o trailer de cinema, digno dos piores pesadelos - esteriotipado, forçado. Tá certo que um dos primeiros diálogos me deu medo (a hora que Cazuza conhece o pessoal do Barão), mas depois melhorou, e muito.
Cazuza vivia como um personagem- ele tinha grana, o amor dos pais e dos amigos e não conhecia limites- e por isso ele era realmente alguém até certo ponto irreal, esteriotipado. Alias, um dos seus principais méritos do filme é o de não cair na armadilha do Herói Americano de Sid Field: As situações de vida de Cazuza originam e se entrecruzam com as suas letras e músicas, e esse é o (bom) fio condutor da história e o ponto alto do filme - a bela narrativa. Em curtíssimos espaços de tempo Cazuza e sua vida vão mudando e o desorientam - "Ideologia, eu quero uma pra viver" - e assim nos deparamos com suas descobertas- as paixões, as drogas, os sonhos - e as frustrações, que começam com o fim da rebeldia e inocência juvenil, e terminam no choque da descoberta da AIDS - é somente através dela que ele se desilude com a vida e descobre suas frágeis fronteiras com a morte.
A vida de Cazuza, segundo sua própria definição, surge num diálogo com a mãe - "Eu estou conseguindo tudo o que eu quero muito rápido, e daqui pra frente, o que eu vou querer?". Cazuza teve uma vida rápida e intensa, assim como é o rítmo do filme.

O destaque negativo são algumas falhas de produção (os shows, no Rock in Rio principalmente) creio, por falta de verba. Mas isso pouco compromete.
A curiosidade é que o roteiro é do Fernando Bonassi, que escreve pra Ilustrada além de ter alguns livros publicados... realmente, em certos momentos o clima do filme lembra o de seus textos- muito bom.
E a cena mais bacana é Cazuza correndo na praia perturbado quando ele descobre que tem Aids- a camera trêmula, a força que ela passa, é de uma precisão difícil de se ver.
Por fim, é muito bom que se resgate a memória de alguém tão importante na cultura nacional, movimento esse que, Graças a Deus (afinal Deus é Brasileiro...) está crescendo.
Agora chega. Mas não fique com a opinião de quem "voz que" escreve ou de algum crítico ou jornalista. Veja. Vale a pena.
B.
ps: Claro, o Daniel de Oliveira mandou muito bem. Impressionante sua semelhança com o cantor e a ótima atuação. A Marieta Severo ótima, bem o Reginaldo Faria e o elenco no geral (o que me surpreendeu para uma produção meio Global). Só o Frejac - não que o ator esteja mal, é que ele não se parece em nada com o atual lider do Barão.
Escrito por Bruno F. Goldgrub às 23h09
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Passam dias, horas, carros, pedestres.
Passa o tic tac dos relógios e as luzes noturnas.
Passam palavras, páginas, palavrões, cobranças.
Passo meus olhos sobre a vida como se o tempo não passasse e vejo fotos, boletins, velhas cartas e emails de amor:
Assim, como se não fosse eu, ou como se eu fosse muitos, me surpreendo com o que já fui um dia.
(escrevi nesse ano)
(foto T.Jungle - Moving City, série Heavy Rain - Modificada por quem vós fala)
Escrito por Bruno F. Goldgrub às 22h54
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Ando ouvindo muito Beatles (like always)...
Pra quem curte, é obrigatória a audição do Anthology 3. Sensacional. Pra quem não curte e acha que Beatles é uma banda muito "felizinha", aí está chance pra você educar seus ouvidos, bastard!
O Cd 2 principalmente têm no geral um clima melancólico, irônico e é muito atual. Existem inúmeros destaques, mas a que está tocando direto no meu carro é Something, numa versão simples e perfeita. Um Absurdo, ou, segundo o comentário de Paul no intervalo do ensaio/gravação, "like a fine wine" (com um sotaque britânico carregado...). Só mesmo ouvindo.
Fora isso, ainda procuro um formato pro Blog, mas só mesmo experimentando.
Pra terminar, já que o Cara tá vindo aí, vai uma bela tirada:
Filosofia de um cachorro (meu camarada):
Se uma coisa não dá pra comer nem pra fuder, mije em cima dela.
Paul Auster.

Escrito por Bruno F. Goldgrub às 18h51
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