
Disseram-me que eu estava ofegante e há alguma razão nisso. Talvez o fôlego se desprenda do meu peito dum jeito
estranho, ansioso, tenso...
Disseram-me pra não fazer na vida o papel de tolo, pois é o pior de todos, como um corpo retorcido.
Também disseram pra não apagar a luz, pra não se expor à escuridão e as incertezas... disseram um monte de coisas
estúpidas, falsas, mentiras mal contadas que escapam pela tosse da apresentadora lendo a notícia no jornal da noite.
Pois um dia, de repente talvez, o conto de fadas acabou e eu me tornei uma pessoa que acredita na besta crença da realidade,
onde os sonhos e fantasias se desgastaram até que não são mais eficientes na minha luta contra os dias frustrados, diferentes
dos sonhos que eu tinha quando me imaginava com 23. Agora tenho 23, sonhos que nunca passarão de sonhos, uma
realidade pacata, artificial e uns bons amigos que me servem como consolo pras trepadas que eu fracassei.
Agora mesmo duas recebi duas ligações, mas eu não tive saco pra fazer qualquer outra coisa que não ficar em casa. Porque
eu estou entediado. Porque eu estou cansado. Por essas duas anteriores e algumas outras que lhes poupo a leitura. Notas
escrachadas dum barco sem rumo. Poesia sem fantasia, dura vida na selva de pedras. Salvem o lírico.
...
Vamos analisar as olheiras roxas abaixo de meus olhos e falar sobre as seis horas mal-dormidas de ontem pra hoje pra
descobrirmos os possíveis sintomas duma eta vida besta. E faz tempo que não sonho. Ontem olhei pela porta da classe e
não vi o horizonte. Ele estava tapado por um enorme pedaço de concreto cheio de janelinhas pequenitas e azulejadas que
dão pra outras paredes- umas, outras, todas iguais. Assim por diante. Não dá mesmo pra ver o horizonte estrelado e o céu
azul. Tenho vontade, bem real, de fugir dessa merda, mandar tudo pra puta que pariu e ver se as coisas acontecem. Aí eu
me ajeito, creio em outro tipo de existência e etc e tudo melhora. Porque pior que isso seria impossivelmente catastrófico
de se imaginar- um exagero estilístico que bem define o atual panorama. É assim que está meu saco. Inchado. Inflamado.
Louco pra explodir.
E eu continuo ofegante, ansioso, esperando o Godot que não vai aparecer mesmo. Acho que devo sair de cena.
Fechem-se as cortinas de prata com listas vermelhas pois a maquiagem branca que cobria o rosto do palhaço escorre
junto com as lágrimas - gotas d´água caminhando pelo barro seco do sertão Salgado. Pobre do prazer, que já não
consegue mais fugir da zona morta. Pobre dele, de mim e de você sufocado. Pelo mundo. Os afazeres. Que tomam todo
espaço que supus poder usar com água benta...
Santificado seja vosso nome, seja feita vossa vontade assim na terra como no céu. Amém.
E choro.
choro
e choro.
Escrito por Bruno F. Goldgrub às 23h50
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