O MENINO PERDIDO
Lenta infância donde
como de um pasto longo
cresce o duro pistilo
a madeira do homem
Quem fui? Que fui? Que fomos?
Não há resposta. Passamos.
Não fomos. Éramos. Outros pés,
outras mãos, outros olhos.
Tudo se foi mudando folha por folha
na árvore. E em ti? Mudou tua pele,
teu pêlo, tua memória. Aquele não foste.
Aquele foi um menino que passou correndo
atrás de um rio, uma bicicleta,
e com o movimento
se foi tua vida com aquele minuto.
A falsa identidade seguiu teus passos.
Dia a dia as horas se amarraram,
mas tú já não foste, veio o outro,
o outro tu, e o outro até que foste,
até que te arrancaste
do próprio passageiro,
do trem, dos vagões da vida,
da substituição. do caminhante.
A máscara do menino foi mudando,
emagreceu sua compleição doente,
aquietou seu mutante poderio (...)
era também eu mesmo:
era eu que crescia,
eras tu que crescias,
era tudo,
e mudamos
e nunca mais soubemos quem éramos,
e às vezes recordamos
aquele que viveu em nós
e lhe pedimos algo, talvez que nos recorde,
que saiba pelo menos que fomos ele, que falamos
com sua língua,
mas desde as horas consumidas
nos olha e não nos reconhece.
Pablo Nerruda
(só posso dizer que ainda faltou um pedaço- tive que editar por falta de espaço).
Escrito por Bruno F. Goldgrub às 16h10
[]
[envie esta mensagem]
|