Me pergunto sobre a importância desse capítulo chamado – música – pelos quais tantas pessoas me conhecem.
E fico triste pra caralho quando respondo que não estou tocando por falta de tempo. Parece que o mundo desaba,
porque quando eu tocava, costumava tocar quem me via tocar. E já me disseram, algumas vezes, talvez muitas, que
eu tinha talento pra coisa. E eu acreditava nisso... a música iluminava meus olhos e esquentava as noites como um
bom vinho. Agora só posso recorrer às palavras porque as cordas do meu violão enferrujam, as válvulas do meu
amplificador não esquentam e as teclas do meu piano estão quietas. Respondo-lhes que não tenho muito tempo
para tocar e enquanto minhas mãos giram o tp idiota e minha voz grita repetidamente, como se eu fosse um robô,
10 segundos: 10 segundos pro vt entrar no ar, 30 dias pro meu salário cair e um fim de semana pra respirar um pouco
em meio a essa correria desumana.

Minha mãe costuma dizer que para ser artista (ela tem um talento e uma imaginação extraordinária
para desenhar) é preciso tempo. Que não dá pra ser meio artista, porque a arte dói... Nunca entendi
àquilo direito até sentir na pele...Agora ouço música enquanto transito de um lado pro outro, mas não
é a mesma música que eu costumava ouvir. Talvez porque meus sentidos estejam entupidos e não haja
motivações pra música nesse momento... não que eu não queira e não ame a música, mas parece faltar
inspiração. A música é um dom e é preciso silêncio pra escutá-la e uma motivação pra tirá-la de dentro
da gente. Talvez eu precisei tocar bastante, sozinho, na noite e chorar um tanto pra curar essa ressaca que
está demorando pra passar. Desilusão, talvez a maior de todas... foi assim que eu abandonei a música. A
carreira de músico. Talvez porque justamente quem eu mais queria que me escutasse, nunca tenha se dado conta que
nunca me ouviu. Talvez tenha sido meu pai, talvez tenha sido eu mesmo. Ainda não sei, não sei se um dia isso ficará
claro... o que é meu e o que é de meu pai nessa melodia triste, harmonia sem tom. Gostaria de saber pra um dia voltar
a tocar de verdade, pra mim e pros que estão escutando e costumavam me aplaudir. A música foi uma das identidades
mais duras que eu construí e ainda a tenho, mas ela não está presente, agora. Quero voltar a tocar. De verdade.
Mas não sei como.
Escrito por Bruno F. Goldgrub às 00h37
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