
Chove na alma dum poeta enquanto os sapos coalham.
Atravessam a rua pedestres cobertos por guarda-chuvas enormes.
E chove na alma do poeta que rabisca seu nome no papel querendo falar com Deus:
“Deus não está”, respondem do Céu.
Mas o poeta não acredita, pois continua chovendo e Deus não quer lhe ouvir.
Cansado de esperar, abre o guarda-chuva e sai atrás de vozes na esperança de
achar uma resposta pra sua prece.
Descontagiado pelo real, o poeta não acredita nem nos olhos que ignoram e nem no
sorriso duma menina feliz. O poeta se encanta pela tristeza daquela garota que chora.
Pelo pobre velho aleijado, na quietude que esconde tantas entonações. O poeta olha pela janela
e vê neve que cai, meninos atirando flocos de gelo e o que vê já é poesia. O poeta
está preso, ilusão. O poeta quer amar e apalpar aquele corpo feminino, sutil,
extrair a beleza como se ordenhasse. A natureza do poeta, o corpo da mulher, os sonhos que
desenha com a ponta dos dedos.
É tarde, o poeta volta pra casa, deixa o capote de lado. ( ) O poeta joga o guarda-chuva, toma
uma taça de vinho, liga o som. Põe-se a sonhar. O poeta.
Escrito por Bruno F. Goldgrub às 23h45
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