Liguei o chuveiro e me ajeitei de tal forma que o jato d´água cobrisse todo o corpo. As gotas caiam na cabeça
e escoriam corpo abaixo em grande velocidade. Eu me sentia um guarda-chuva absorvendo de olhos fechados
todos aqueles pingos, uma enxurrada de água, batendo forte na minha cabeça, quase entupindo o ouvido. E cada
gota que caia levava um pouco de mim, os dias iam embora... buzinas, andanças, livrarias, meninas, cinema, pizzaria...
milhares de coisas no corpo se debatiam despencando ralo abaixo.
A camada mais superficial que nos liga ao mundo é a porta de entrada para germes e bactérias impregnados em
todos lugares. Já os muros, fachadas, estradas e prédios são a pele da cidade e quase não tomam banho, esguicho
sei lá, deixando os registros acumulados, vestígios dum ciclo que recomeça manhã após manhã e em tardes e noites
se repete, dias, mais dias, o mundo gira, detritos.
O homem, de dias, dias e dias, sorri, chora e se recria: cada vez que toma banho limpa os vestígios, recomeça e as
histórias seguem água abaixo se perdendo pelo ralo. É por isso que é bom tomar banho e ficar cheiroso. Pelo menos
até por o pé pra fora e dar de cara com o muro.

(fotos Carlos Serra)
Escrito por Bruno F. Goldgrub às 11h39
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