Em determinados momentos de vida João desejava se tornar outro. Não era sempre, era de vez em quando.
Por exemplo, quando ouvia músicas bonitas João queria se tornar o autor dessas músicas e colher as glórias
devidamente pagas em bebidas, mulheres, histórias de bar e novas composições pra continuar fazendo boa
música e colhendo glórias. Também era assim no cinema, bastava ver um filme desses que logo ao subir o
letreiro e começar o burburinho ele já se sentia o prestigiado diretor, as vezes o galã e percebia a própria
presença invadindo os expectadores incrédulos que viriam falar com ele, perguntando como ele, oh!, ele
João Cláudio, tinha podido realizar àquela obra genial e ao mesmo tempo ter interpretado o galã com tanta
maestria, tornando-se, naturalmente, além de um genuíno diretor-galã um ótimo partido pra qualquer menina
bonita; bom conversa, boa pinta, um verdadeiro objeto de desejo, ele, oh! gênio, João Cláudio Lima.
Mas voltando pro atual tempo/espaço, João por alguns segundos desejava apenas ter um lampejo, simples,
de breve duração e que servisse tão somente para àquela situação embaraçosa que se apresentava entre ele
e a tela do computador... João rabiscava o caderno, colocava boas músicas, bisbilhotava revistas e fazia todo
possível para se inspirar e criar uma frase de efeito, uma frase que o fizesse tão brilhante quanto os bons músicos,
atores, diretores de cinema e pessoas geniais afim de conseguir um lugar no hall da fama de jurados invisíveis que
julgariam àquilo somente pela qualidade e não por indicação de terceiros ou por ele possivelmente ser filho de
bancários, alguém famoso ou algo assim. Não, João queria simplesmente que olhassem pra aquele pedacinho da
sua obra e suspirassem, uau!, (british accent e cara de impressionado) reconhecendo sua capacidade inventiva e
de adequação bem como a premiando. Imaginava até a frase ficando mundialmente famosa depois de pichada nos
muros da cidade e usada nas propagandas e piadinhas de talk show e ela já estava quase surgindo, esperava
somente por um oportuno momento de êxtase e libertação pra que ela brilhantemente aparecesse, ah João, vêm,
vêm, isso, vêm JOÃO, ah vêmmm...calma, calma João, está chegando, quase-quase, é só esperar mais um pouco.
E João rabiscava, escrevia, rascunhava desesperadamente afim de colocar aquele mar de pensamentos no prato e
garfar os jurados pelas vias indiscutíveis, viscerais, ganhar o concurso e celebrar com sua linda namorada um jantar
a luz de velas e daí pra festa de premiação, talvez não bem uma festa, mas ao próprio prêmio que era uma espécie
de festa obtida com méritos próprios e – Aaah, João. Alívio!
Escrito por Bruno F. Goldgrub às 17h06
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