O velho menino acordou no Oeste Americano, sob a cabeça um sol baixo, e foi pra varanda onde

  ficava a velha cadeira de balanço e a viola de cordas de aço. Então começou a tocar John Cash e

  desperado entoou o refrão repetidas vezes afim de que seu canto atingisse o ouvido daquela moça

  que ele tanto gostava e nunca lhe deu ouvidos. Pensou na moça um tempo aí, a tarde passou e ele

  voltou pra cama carregando a história consigo- dormiu mal. E seguiu numa rotina dessas com apenas

  algumas nuances e parábolas até que num dia cansou de ouvir o refrão you better let somebody love u,

  u better let somebody love u, u better let somebody love u... e deixou a música partir before it´s too late. 

  Sim, o menino é moço, novinho e bobo, e isso é apenas uma canção, mas o menino se cansou de repetir

  que não voltaria atrás sobre aquela história mal resolvida e voltou - o mesmo tanto de vezes que ouviu

  o refrão. Agora vai deixar que a história esfrie pra sempre, pois é assim que ele se sentia quando ouvia

  as palavras dela – que também se parecem com um refrão – e acabava, hora ou outra, triste com isso,

  pobrezinho... E mesmo tão menino e tolo, ele sabe que não basta seu amor - que ele nunca poderá descobrir

  ao certo se é isso, mesmo achando que era - pois as coisas nunca puderam tomar seu rumo naturalmente,

  ah, ela nunca deixou.

 

  Agora ele vai trocar o disco e deixar que a velha canção suma por dias, meses, anos, sabe-se lá por

  quanto, até tudo passar porque, mesmo não querendo lá no fundo e é esse o ponto que sempre machuca,

  ele se cansou do refrão. O menino perdeu de vez a fezinha (palavra essa tão dúbia, mas ela quase nunca

  entende essas coisas...) que ainda restava dizendo tudo que sentia e podia e vendo que o refrão continua,

  sempre, sendo o mesmo refrão. (...) Ele pegou sua trouxinha de roupas, pulou a varandinha e deu no pé com

  o coração partido. Ah menino, se acalme, não fique assim...

 

  ... No caminho o menino pensou na menina com todo carinho e desejou que ela fosse feliz ao lado de

  alguém, porque ao lado dele, ele acha que já não dá mais tempo e deixou o disco em algum lugar da

  estrada, lamentando profundamente que ele não esteja aonde deveria estar. Ah sim, quem sabe

  daqui alguna anos o disco ainda esteja lá...  



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 22h09
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  Desperado.

 

  Desperado, why don't you come to your senses?
  You been out ridin' fences for so long now.
  Oh, you're a hard one,
  But I know
that you've got your reasons.
  These things that are pleasin' you,
  Can hurt you somehow.

  Don't you draw the queen of diamonds, boy,
  She'll beat you if she's able.
  Know the queen of hearts is always your best bet.
  Now it seems to me, some fine things,
  Have been laid upon your table.
  But you only want the things that you can't get.

  Desperado, oh, you ain't gettin' no younger:
  Your pain and your hunger, they're drivin' you home.
  And freedom, oh freedom,
  Well, that's just some people talkin'
  Your prison is walking,
  Through this world all alone.

  And don't your feet get cold in the winter time?
  The sky won't snow, the sun won't shine
  It's hard to tell the night time from the day
  You're loosin' all your highs and lows
  Ain't it funny how the feeling,
  Goes away?

  Desperado, why don't you come to your senses?
  Come down from your fences, and open the gate
  It may be rainin', but there's a rainbow above you,
  You better let somebody love you,
  You better let somebody love you,
  You better let somebody love you,
  Before it's too late.
 

 

 



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 21h58
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  Em determinados momentos de vida João desejava se tornar outro. Não era sempre, era de vez em quando.

  Por exemplo, quando ouvia músicas bonitas João queria se tornar o autor dessas músicas e colher as glórias

  devidamente pagas em bebidas, mulheres, histórias de bar e novas composições pra continuar fazendo boa

  música e colhendo glórias. Também era assim no cinema, bastava ver um filme desses que logo ao subir o

  letreiro e começar o burburinho ele já se sentia o prestigiado diretor, as vezes o galã e percebia a própria

  presença invadindo os expectadores incrédulos que viriam falar com ele, perguntando como ele, oh!, ele

  João Cláudio, tinha podido realizar àquela obra genial e ao mesmo tempo ter interpretado o galã com tanta

  maestria, tornando-se, naturalmente, além de um genuíno diretor-galã um ótimo partido pra qualquer menina

  bonita; bom conversa, boa pinta, um verdadeiro objeto de desejo, ele, oh! gênio, João Cláudio Lima.

 

  Mas voltando pro atual tempo/espaço, João por alguns segundos desejava apenas ter um lampejo, simples,

  de breve duração e que servisse tão somente para àquela situação embaraçosa que se apresentava entre ele

  e a tela do computador... João rabiscava o caderno, colocava boas músicas, bisbilhotava revistas e fazia todo

  possível para se inspirar e criar uma frase de efeito, uma frase que o fizesse tão brilhante quanto os bons músicos,

  atores, diretores de cinema e pessoas geniais afim de conseguir um lugar no hall da fama de jurados invisíveis que

  julgariam àquilo somente pela qualidade e não por indicação de terceiros ou por ele possivelmente ser filho de

  bancários, alguém famoso ou algo assim. Não, João queria simplesmente que olhassem pra aquele pedacinho da

  sua obra e suspirassem, uau!, (british accent e cara de impressionado) reconhecendo sua capacidade inventiva e

  de adequação bem como a premiando. Imaginava até a frase ficando mundialmente famosa depois de pichada nos

  muros da cidade e usada nas propagandas e piadinhas de talk show e ela já estava quase surgindo, esperava

  somente por um oportuno momento de êxtase e libertação pra que ela brilhantemente aparecesse, ah João, vêm,

  vêm, isso, vêm JOÃO, ah vêmmm...calma, calma João, está chegando, quase-quase, é só esperar mais um pouco.

  E João rabiscava, escrevia, rascunhava desesperadamente afim de colocar aquele mar de pensamentos no prato e

  garfar os jurados pelas vias indiscutíveis, viscerais, ganhar o concurso e celebrar com sua linda namorada um jantar

  a luz de velas e daí pra festa de premiação, talvez não bem uma festa, mas ao próprio prêmio que era uma espécie

  de festa obtida com méritos próprios e – Aaah, João. Alívio! 



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 17h06
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  Finalmente, estava ali a frase, ali estava a obra de J. Claudious Limá, decididamente, reconhecidamente

  um gênio desabrochando, um ser livre e irrequieto, um artista de corpo e alma- um publicitário nato. E depois

  de uns dois ou três dias, quando o site divulgou o resultado do concurso, cinqüenta pares de ingressos

  distribuídos e João, o pobre e medíocre sonhador João, aquele que nunca sequer fez um filme na faculdade,

  nunca ouviu um elogio sobre suas canções e nunca foi campeão de cartas ou quaisquer tipos de jogos de azar

  não viu seu nome entre os contemplados, chorou. Chorou bastante, de tristeza, frustração, raiva, João chorou

  reclamando da vida, cobrando mais parcimônia com Deus, desejando viajar mais com a namorada nos fins de

  semana, João chorou bastante e percebeu que nem àquilo, nem aquela maldita profissão que exercitava todo dia

  e treinava em trocentos produtos daquela puta-que-pariu agência pequena que trabalhava lhe deram a oportunidade

  de ganhar um concurso de merda promovido por um provedor de Internet. João não ganhou seus ingressos pro

  cinemark porque sua frase, mesmo não sendo de todo ruim, não era o que os jurados queriam e, portanto, seu

  brilhante slogan não pegou. Dado o acontecimento, uma vez mais João tirou do próprio bolso uns 50, 60 paus pra

  comer um bom hambúrguer com a namorada e assistir um filme triste no fim do domingo chuvoso. Pobre João,

  amanhã é segunda-feira. 



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 17h01
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