Escrito por Bruno F. Goldgrub às 21h42
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Situações Tarantinescas: você pode não acreditar, mas elas existem...

 

Eu já havia comprado os ingressos pro Open air uma semana antes e aguardava ansioso pra ver os irmãos Kill Bill na tela gigantesca a céu aberto. Não pude ir nas edições anteriores e agora não perderia a oportunidade por nada. (...) foi assim que quase a perdi.

 

Estacionei o carro ao lado de um peugeot prateado, no Jóquei mesmo, bem perto da entrada e saí do carro tão empolgado que só quando estávamos na porta é que me dei conta que o envelope com os ingressos havia ficado no carro. Voltamos apressados e já bem próximos dele foi que dei de cara com uma menina apertando o controle e trancando o classe A (que mais parece um ferro de passar roupa) estacionado ao lado do meu bólido. Chegamos, destravei as portas e comecei a procurar o ingresso... não está ao lado da porta, no console e nem no porta luvas, cacete cadê esse ingresso, tem certeza que não ta com você, mas eu estava com eles em mãos quando comemos o dog lá fora... puta merda, só falta eu tê-lo deixado no teto enquanto abria a porta e.

 

---- interrupção ----

 

-O que é isso aí debaixo do pneu do mercedes?

- Ah sim! Ufff, ta aqui, é puxá-lo (preste atenção aos sinais).

 

--- voltando ---

 

...Puxa, puxa, puxa. Humn, acho que estamos ferrados! Ele ta preso!

 

RECONSTITUIÇÃO DRAMÁTICA:

 

Os dois amigos descem do carro e logo o ingresso cai do bolso de um deles - o motorista e narrador dessa história - que não percebe o fato. Seguem tranquilos e só em frente a entrada é que se dão conta de que está faltando uma coisa muito importante – ta tam! - e voltam ao carro para pegá-la: ao se aproximarem cruzam quase despercebidamente a menina (nem tanto, porque era bonita) que acabara de estacionar um mercedes e passam incólumes (só dando uma torcidinha no pescoço) por ela. Procuram os ingressos nos lugares aonde ele deveria estar e quando se dão conta, fuçam aqui e acolá, ele está debaixo do pneu de um carro que acabou de estacionar e cuja dona acabara de se perder na multidão. Não dá pra tirar o envelope debaixo do pneu sem rasgá-lo, o que dilaceraria todo um projeto de anos (isso torna tudo mais dramático), e eles não sabem o que fazer. Achar a menina, explicar a situação irreal, digo, quase irreal e convencê-la a ajudá-los não será fácil, quer dizer, poderia ser uma boa história, mas isso despenderia muito tempo e energia e. O que farão?

 

Pensa.

Isso, mais um pouco.

E aí, têm certeza? 

 

Bom, olharam um pro outro, amigos de longa data, e não tiveram dúvida: abriram o porta-malas calmamente, tiraram o macaco, um tapou o pequeno vão que havia entre os carros pra não atrair atenção da multidão e o outro tornou a subir o mercedes, bem devagar pra não soar o alarme e causar um baita alarde ou causar danos ao carro (somos politicamente corretos).

Sobe sobe sobe sobe o macaco e nada. Sobe sobe sobe e foi um pouco, vai mais, sobe sobe sobe sobe, pera aí que vou levantar um pouco o pneuuuu, argh! Vaaaai...

Deixa que eu puxo, pera. Peguei. Peguei!

Oh oh. É... rasgou um baita pedaço do envelope, será que os ingressos estão inteiros, ai ai ai...

YES! Estão bem aqui, novinhos!



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 20h58
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Guardam o macaco sequer acreditando no que havia acabado de acontecer (past participle), voltam à porta com os dois 

ingressos na mão e entram.

 

---

 

Final feliz?

Quase, é apenas o começo.

 

---

 

Assistir o filme com a cidade fazendo parte do espetáculo é emocionante (me desculpem a pieguice, mas é). A tela é gigantesca, o som é perfeito e fora o filme, a sessão tem seus bons momentos, com a chuva fazendo uma grande parte da multidão que estava nas espreguiçadeiras correrem pra debaixo da arquibancada enquanto a outra apenas abria tranquilamente a capa de chuva distribuída caso isso acontecesse. Além do mais, assistir os dois filmes em seguida, como planejado originalmente pelo diretor (era pra ser somente um filme essas duas partes) melhora bastante a película. Apesar disso, é o filme mais fraco do Tarantino (e o mais fraco do Tarantino é melhor que quase qualquer coisa que se faz hoje em dia, bastantão divertido). Enfim.

 

Bom, mas o grande show da noite foi ver a vocalista do Sex Dallas em momentos extraordinários de dança. Nunca vi alguém tão (des)coordenada. Uma branquinha magrela de cabelos pretos lisinhos extremamente maquiada que parecia uma performer, uma espécie de robô humano num primeiro momento e que depois se tornou o robô mais desengonçado que eu já vi, parecia que os bracinhos tinham vindo com defeitos. E ela repetia everybody jump, everybody jump e pulava e eu achava àquilo muito hype (que legal, nunca consigo usar palavras modernas tipo hype, must, cyber e tal e agora to podendo porque era uma vibe muito intensa, tipo assim) e até pensei em cunhar um termo novo, quer dizer, nomear o movimento de pós-mulatismo, que seria uma espécie de antítese ao que nós brasileiros chamamos de dança (quase sinônimo de being sexy), porque àquilo tudo o era muito ridículo (ou ininteligível pra caras como eu); a menina era desengonçada, mal vestida e totalmente anti-sexy e os caras ficavam tocando computador como se fossem meninos de dez anos brincando nos antigos Cássio e era uma parafernália eletrônica cheia de fios e tal e isso só podia mesmo rolar em São Paulo. O pior? Foi ótimo. E depois fiquei pensando durante muito tempo em situações em que eu colocaria aquela menina e talvez a mais célebres foi imaginar o show acontecendo no interior – tipo Pindamonhangaba - cheio de caipiras engraçados tomando cerveja e imaginar o seu Barnabé e os amigos rindo sem entender nada, fazendo piadas ótimas entre uma cachaça e outra enquanto o Sarna, o cachorro do Roberto, um desses viralatas mal-cuidados e fedido subiria no palco e ficaria zanzando à toa e cheiraria a perna da vocalista, faria xixi nas fontes e tropeçaria nos Powerbooks acabando com o show daquela moçada exquisita (ta aí outra palavra legal). Eu daria tudo pra ver um daqueles caipira com bigodinho típico e os dentes meio sujos gargalhando por horas, bem espontâneos – só gargalhando mesmo – e eu choraria de rir, muito muito feliz. Tudo bem rústico, interiorrr, claro.

 

Bom, pra acabar, só tinha gente bonita como gostam de dizer algumas conhecidas e àquilo era um verdadeiro zoológico. Pati´s, alternativas, peruas que tem por volta de 25 se vestem como se tivessem 40 e se maquiam como se tivessem 60, e peixes fora d´água (ho!). Foi antológico. Uma pena não ter podido ficar mais e aproveitar até o final... Acordar 06h30 não é pra qualquer um. Talvez seja. Mas fui embora, mesmo sem querer. E adorei.

 

Engraçado, eu nunca mencionei ou me preocupei com a organização de eventos, mas esse estava tão bom que devo dar os parabéns aos organizadores. Tudo muito bom, sem exceções, inclusive as instalações cheio de artefatos multimídias e o melhor – o plástico bolha na parede (prato cheio pra todos). Quem dera se minha casa fosse assim, eu nunca ficaria entediado e meus amigos me achariam legal. Quem me dera.

 

The end.



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 20h57
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Fico me perguntando porque eu não conheci Crumb no auge dos meus 15, 16 ou até 17, 18 anos. Certamente eu teria me tornado uma pessoa melhor. Engraçado esse estigma nacional que quadrinhos é coisa de nurd – ah sim, deve ser mesmo. Talvez eu esteja chegando atrasado a essa fase. Alias, outro dia tava pensando como eu gosto das “coisas velhas”. O Crumb é fã dos anos vinte e eu partilho esse gosto pelo jazz, bluegrass e a música do gênero, mas eu adoraria mesmo de ter vivido a adolescência no fim dos anos sessenta e a juventude setentista. Hoje eu seria mais velho e provavelmente acharia o mundo até pior do que acho hoje, mas poderia dizer, hey fulano, vivi os anos 70 e você não nasceu e nunca vai passar de um embrião; eu vi Beatles, Led, curti James Brown e o mundo era um lugar mais bacana, já você rapaz, vive na internet e sua geração não conseguiu grandes coisas com a música. Sim, o tiozinho teria razão e mesmo achando que por “natureza” eu deveria defender minha geração, eu acho que iria pra casa escutando Back in Black chutando pedrinha nos moleques da minha idade.

 

Você pode achar que eu sou um babaca que pensa que antigamente as coisas eram melhores - e eram! - mas no final do texto eu direi que ainda existe esperança. Mas ainda é cedo, vamos seguir.

 

O que existe depois dos anos 70? Vem a babaquice dos anos 80, teclados com sintetizadores e músicas que agora ficam em voga porque as pessoas (chamadas genericamente de pessoas apesar de eu não classificá-las dessa maneira, isso de chamá-los respeitosamente de pessoas é pra não generalizar os moderninhos, colunistas de moda, gays e todos outros que ouviam Xuxa quando criança, pobrezinhas, não é culpa delas e hoje acham o máximo ouvir novamente a Xopa de letrinhas da Xuxa na balada e se lembrar como pulavam em frente a tv dançando desengonçados enquanto mamãe fuxicava com vizinha dizendo olha que graça meus filhos dançando) acham essa porcaria glamorosa, que por sinal também é uma palavra dessa década, como tudo dessa década, muito feia. Eu tenho vergonha dos anos 80 e de ter nascido nesses meados, com certeza essa foi uma das gerações mais desprezíveis que se tem notícia. Nos anos noventa, dominada pelos filhos dos setentistas, que também não foi lá essas coisas, ainda tiveram umas coisas bacanas tipo Soundgarden e Rage Agains, o movimento grunge (vocês podem citar Nirvana, ok, ok) e hoje, pode soar brega, mas você adorava Guns, achava foda o Axel se esganiçando e o Slash com aquela cartola e o cabelinho preto de mola, igual ao do seu amigo que você vive puxando pra sacanear. Bom, eu até pensei em associar as coisas da seguinte maneira, a geração do ano 2000 é formada por filhos do anos 80 e fatalmente será um lixo de geração e se dermos um pulo pra trás fico curioso em saber porque os anos 80 vieram a se tornar um lixo, o que aconteceu de tão extraordinário pra ele ficarem assim, são filho dos anos 60 e haviam coisas excelentes nos anos 60, mas o que me preocupa é o fato de que se pensarmos, quem são os ídolos dos pais da juventude de 2000? Quer dizer, imagina hoje seu pai com quarenta anos e você perguntando - hey velho, o que você curtia com vinte anos e ele te responde RPM, Titãs, Titãs era foda e Paralamas. Ufffff. Vocês podem dizer que eu desvalorizo o rock nacional – sim! Vocês tem razão (não estou falando de Mutantes!) mas eu seria ainda mais deprimido se meu pai dissesse que adorava o Paulo Ricardo. Você já pensou nisso? Bom, talvez a sua amiga diga a filha que adorava Sandy e Junior e a coisa seja mesmo pior. O fato é que hoje não me empolgo muito com nenhuma banda nova. Existe um punhado de bandas divertidas, algumas muito boas e raras, tipo White Stripes, mas a maioria é um lixo, timbres iguais, letras iguais, melodias iguais. Ah, não sei. Essa modernidade medíocre me enoja. Ok, Strokes é legal, mas não imagino nada além de duas ou três musiquinhas bacanas tocando no golden hits da rádio daqui a vinte anos e influenciando uma geração possivelmente ainda pior. Oh não, acho que as coisas ficarão melhores, juro que acho. Mais pra baixo não dá.

 

Enfim, eu posso continuar com isso por horas, mas já deu pra entender. Talvez eu esteja ficando muito niilista, não? Mas “o homem jovem é pateticamente esperançoso e otimista...conforme ele fica mais maduro, começar a dar de cara com as duras realidades da vida e termina velho e amargo, arrependido dos sonhos desmoronados, sentindo-se trapaceado pelo seu destino, com seus dias repletos de dores e sofrimentos que o leva a esperar a morte com ansiedade (...) e a melhor resposta que alguém já propôs para nossos problemas é sentar e fazer nada” (Crumb - América).

 

Exatamente como faço agora. Esperando, esperando, esperando... até que eu saia daqui e volte, graças a Deus, a ser o mesmo jovem patético e otimista que adoro ser, longe daqui. A “mudernidade” São Paulo me envelheceu, não há esperança por aqui. Fujam enquanto é tempo.

 

     



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 16h19
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O quê é o cinema, o que é o olhar. Como e o que representam as pessoas importantes pra você, como mostrar o que está velado nos retratos abaixo. Fiquei me perguntando isso, buscando nas fotos o espírito que tomava conta dos três caras na pousada em Ilha Bela. A câmera capturou tudo muito saturado e por fim mudei as cores porque não me interessavam as ditas cores reais, que refletiam a luz na câmera, marcavam a prata e se tornavam imagens, mas as cores que eram mais fiéis, pode-se dizer, aos sentimentos que tomavam deles. Cada um tinha uma história peculiar, um jeito de ver, encarar e se mostrar à câmera e essa pequena mostra, mesmo aqui sendo pouca, me permite reviver a viagem e enxergar lá longe àqueles momentos.

 

--

 

Foi uma viagem atemporal e a noite, quando chegava, não trazia grandes preocupações com o tempo ou o que fazer. Ouvia-se Django, Billie Holiday e Johny Cash e a fumaça que saia dos cigarros ia pro ar e nos levava junto dela. Haviam livros jogados no chão e um caderno rabiscado. Havia a  varanda que mostrava um quadro de luz impressionista  da pequena cidade espelhada no mar e as embarcações cortavam as águas de cabo a rabo deixando escapar um pequeno ruído durante a travessia; enquanto isso as lagartixas que habitavam os arredores da fraca luminária na parede nos entretinham devorando mariposas e afins. Havia um mundo de divagações sobre a vida o mundo as convicções as mulheres e essa série de imagens registra isso com uma vida muito grande; quase posso tocá-las de tão palpáveis. Algumas estão abaixo e outras posso contá-las, como faço agora.

 

--

 

Mudei muita coisa de lugar depois dessa viagem e não posso justificar  nem por palavras e nem por imagens,  pois não seria suficiente. Talvez a mudança seja de alguma maneira a névoa abstrata que voava borrando o ar com seu rastro. 

Ficam aí, abaixo, algumas cenas.

 

             

 

         

 

          

     



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 23h59
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