De tempos em tempos tenho vontade de fazer queixas opulentas sobre a vida, seja lá o que isso signifique. Tenho vontade de entrar no cinema e passar bons dias por lá. Não atender telefone, não ter notícias de nada/ninguém, não ser interrompido e só sair, ocasionalmente, pra tomar um café com pão de queijo. Cada vez que as luzes baixam devagarzinho e a tela vai tomando todo espaço, cada vez que olho pra trás e uma luz meio azulada atravessa a sala, denotando nitidamente os grãos de poeira que dançam no ar, cada vez que procuro pelas expressões das pessoas, embriagadas pelas imagens, dou um suspiro de vida. Talvez isso seja besteira e eu só esteja triste mesmo, querendo suspender um pouco o tempo, parar o mundo – não ta nada nada fácil, mas nem é tão difícil assim – mas, independente do meu drama, o cinema me dá (sempre me deu) uma ponta de felicidade, alívio e compreensão. Posso sorrir, chorar, sentir o que eu quiser sem que ninguém me pergunte o que está acontecendo, posso simplesmente emergir nas imagens e me emocionar, lá só estamos eu e a tela ... E nesse fluxo, um espécie de transe me traz de volta lembranças da adolescência: anos atrás eu pegava minha guitarra, meu violão ou sentava por horas no piano e me deixava suspender no tempo executando composições de outros músicos e fazendo as minhas, eu colocava a “vida” na ponta dos dedos e me deixava levar intensamente. Hoje, dizendo isso, o fato me parece muito bobo, piegas... Não, isso não é piegas, mas o fato é que se emocionar intensamente hoje é difícil, irracional!... é o trabalho, são os conflitos, é uma série de fatores que não dá pra teorizar, colocar num papel e dizer, oh! é isso.  Emoção maior por aqui, só o stress e a pressa. Assim, de uma forma ou outra, não me deixo mais emocionar... é como dizem os poetas, os pais e professores, os mais velhos, a vida te desilude, te frustra e até certo ponto, se pode dizer, te faz crescer com isso, é parte do tal “amadurecimento” (estou usando conceitos meio batidos, tolos, porém “universalmente” aceitos). Mas a questão é que estar desiludido permanentemente não fazia e, Deus!, não faz parte dos meus planos. Eu não quero me conformar com esse tal amadurecimento de “olha, o mundo, a vida, é isso mesmo”. Faço um empréstimo das palavras de um velho mestre do samba sobre desilusão, “...em  cada esquina cai um pouco da sua vida, em pouco tempo não serás mais o que é ... ouça me bem amor, preste atenção que o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó. Preste atenção querida, de cada amor tu herdaras só o cinismo, quando notares que está a beira do abismo, abismo que cavaste a teus pés”. Ou ainda, numa memória triste de um artista plástico fã de samba: “Dorme a lua, dorme o Sol, a cigarra dorme o Caracol, essa rua onde o lobo vem. Dorme triste, dorme triste, dorme triste como eu também... não me pergunte aonde vou, vou viajar, raio. Mas logo a chuva fina, no meio da neblina, esconde e ilumina quem me deixou...”. Pequenos versos de uma beleza rara, duas belas imagens, tudo essencialmente simples – uma constatação,  uma lembrança dolorosa, uma memória recorrente, uma história... Isso ainda me emociona mesmo sabendo que a vida é isso mesmo e, agora,  também não é só isso mesmo. Se a vida fosse somente “isso mesmo”, seria muito pouco... coisa bem menor e menos imaginativa, com pouca luz, do que eu concebia quando criança. “A vida é um tempinho horroroso, cheio de momentos deliciosos”. É do Oscar Wylde, mas hoje não passa de um belo bordão publicitário.

 

... Recorro a noite, as luzes da noite, aos bares, as baladas e me contagio pelo escuro. Pelos sonhos irrealizáveis, pelas conversas de boteco, pelas notas dos violões, que quando eu estou embriago, me parecem à única verdade. Me embriago pelos olhos da morena, pelas pernas das meninas de saia, pela gestos e a sensualidade da mulher. Me embriago pela beleza da noite como quando estou no cinema... apagam-se as luzes e eu vejo apenas o que quero ver... no meio de tudo que se mostra eu escolho o enquadramento e a luz, faço meu próprio filme, um sonho que aflora. No fundo, já não sei se o problema é comigo ou com o mundo, a modernidade e a velocidade com que as coisas acontecem ou a minha infância regressando, mas de alguma maneira consigo suspender novamente o tempo. Deve mesmo ser isso. Eu achava que a arte podia tocar as pessoas a fundo e mudar o mundo e hoje acho isso besteira. Não há pra que se emocionar numa estrutura tão concreta – não sei se eu acreditava que se entrássemos em contato com outras estruturas de pensamento poderíamos ser outros, bastaria que abríssemos os olhos, alertássemos as pessoas pra pipa colorida que corta o céu e pronto, aí está, o mundo é outro, as pessoas melhores... Não. Isso não existe mais. A vida só existe fora de si e o que resta são as migalhas do moinho, a cigarra que dorme o caracol e alguma esperança de que a vida não somente seja isso mesmo.

 

* “O Mundo é um moinho”, Cartola.

* “Dorme a Lua”, letra de Nuno Ramos interpretada por Rômulo Fróes e Dna. Iná

* confiram esse blog - http://www.narizdecera.blog-se.com.br – e leiam o texto da Adriana Negreiros que também trata desse tema “Ninguém mais se entusiasma com nada?”. Aproveitem também os textos do Pablo, tem um “A cigana bem que me disse pra não confiar nas pessoas de olhos verdes", vale a pena.



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 12h47
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Curiosidades bestas. Eu tenho, você tem, tu-tela.

(Dr. Frankstein, Johny e Alfred)

 

a) Quando eu for famoso, muito famoso, porque. Deixa eu ver. Porque eu tenho a ponta da orelha esquerda um pouco maior que a da direita e a unha do pé esquerdo côncava (não convexa). Criarão um site (ou um grupo no orkut) eu Odeio o X! (rosnando, quase grunhindo) e eu vou declarar aos grande periódicos e magazines – “ se as pessoas dizem isso é porque eu sou importante, elas falam de mim, pensam em mim, mim, mim, mim!!” – com uma expressão propositalmente arrogante e desafiadora, sendo clicado pelos fotógrafos junto a minha girlfriend modelo Barbie estampado, orgulhoso e triunfante, as capas e primeiras páginas.

 

b) Quando eu for famoso. Talvez por isso mesmo, a ponta da orelha esquerda um pouco maior que à direita e a unha do meu pé esquedo côncava (não convexa). Farei um porno com a minha namorada Barbie e o mesmo caira na rede por acidente e sujara minha suada e intocável reputação, construída ao longo de anos (pela orelha e a unha?). Então ficarei muito deprimido e me internarei na casa de meus pais ou num hotel discreto – tipo Hilton – pra choramingar o que a imprensa apronta comigo, que maldosos, até estar pronto para próxima.

 

c) Farei uma operação plástica na unha do pé com o melhor $icurgião e tenho que decidir se:

 

- nego que tenha feito qualquer operação, nunca tive unhas côncavas (sempre foram. Você sabe)

 

ou

 

- ponho meu pé a prova na capa das revistas e dou uma afirmação tipo “o pé é meu, faço o que eu quero e paguei muito bem pago por isso”. E então, junto a minha frase o apêndice “o pé de 1.000,000,00 de reais”. Ainda, dentro da revista fotos da minha namorada com uma pena de ganso indiano na mão fazendo coceguinha em mim. E frases tipo “eu sou católico, acredito muito em Deus e rezo todo dia, mas o papa não pode me repreender por trocar de pé. Também sou filho de Deus e vaidoso. Mas não descrimino as pessoas, os meninos de rua e tudo que se vê com os pés de unhas côncavas, respeito. Só não queria isso pra mim. Deus há de entender essa minha opção”.

 

Ps: nota do artista: (...) fui aconselhado pelo assessor a escolher mesmo a opção 2. A primeira teria pouca repercussão.

 

d) Depois de tudo, começarei a praticar jiu-jitsu na academia dos Royce, porque todos meu pit-brothers fazem lá também. Aí ficarei fortinho, todo dia rolando com meus amigos no tatame, só na inocência, até que minhas orelhas fiquem gastas e virem um negócio exquisito, todas raspadas, na minha cara. A imprensa demorará pra perceber que as orelhas já não são mais dispares, e quando mostrarem a comparação antes e depois meus fãs nem vão notas que o motivo de minha fama já não existe mais (já serei um artista bem consolidado e famoso pra dar maiores explicação). Veja bem, continuarei famoso e circulando nas capas de revistas por outros motivos... porque eu era o cara que tinha as unhas e orelhas estranhas (bem) e agora, sou o ex-cara com essas características. Como mudou! Estamparão as capas dos grandes veículos vendendo o ideal de vida saudável, a melhoria da raça, o aperfeiçoamento estético. Satisfeito, estarei sendo modelo de vida e alimentando o seu sonho de ser. Como eu.

 

                         



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 12h12
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                       ...



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 12h44
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