
Ela não tinha carta, dirigia livremente pelas ruas mal-calçadas e cheias de lombada e mato, quase interior e costumava atropelar... gatos. Atropela um gato, leva pra casa, dá banho, coloca terno e gravata, perfume, namora um pouco e então o despeja. Atropela outro gato, aplica o mesmo procedimento e assim sucessivamente.
Os gatos sentiam-se estranhamente gratos por aquela moça e desenvolviam uma paixão arrebatadora que lhes cortava a alma (muitos também acabaram cortando os pulsos). Como havia toda uma técnica de atropelamento pra não machucar muito, apesar de vez ou outra quebrar pernas e braços, mas raramente matar, aconteceu somente uma vez, o trauma causado pelo susto era tão grande que os gatos só se davam conta da presente situação quando abriam os olhos, ainda bem atordoados, e se viam socorridos pela linda donzela que lhes passava um lenço sobre a testa.
Uma voz reconfortante pedia pra que ficassem calmos, fechassem os olhos e dormissem, e depois de acomodá-los cuidadosamente no banco traseiro de couro bege do Karman Guia azul claro, eram levados pra uma casinha de madeira de cor semelhante. Dava banho, passava perfume e colocava terno e gravata. Eles só despertavam depois desse ritual (no local do acidente ela despejava um pouco de seu frasco de éter num pano e dava pra que passassem na testa, mas quando eles aproximavam o lenço do bigode e respiravam ouvindo uma voz longínqua pedindo pra que dormissem, prontamente obedeciam).
Na cama e ainda dormindo, era só depois de sentir o aroma do chá de camomila cuidadosamente sobre suas narinas que os gatos, trajados como verdadeiros cavalheiros, despertavam. E a primeira coisa que podiam ver era um lindo rosto os observando com um olhar que passeava entre o malicioso e o maternal e despertava calafrios de reconforto e atração sexual (Édipus).
Deu-se essa história numa cidadela no interior, próximo a cidade grande. A lenda povoava o imaginário de todos os gatos que sonhavam com aquela moça desconhecida e causava tremores alucinantes no pequeno e seleto grupo que fora alvo dela. Alguns gatos, inclusive, ficavam dias na estrada se jogando na frente dos carros esperando pelo socorro da moça. Não sabiam de todos os detalhes que você sabe, nem nunca souberam que naquela época, essa espécie de anti-heroina dos anos 30/40 – a primeira do gênero - era fã de Billie Holiday. Esse caso está registrado nos periódicos junto ao alarmante fato de ter sido uma das principais causas da completa e total dizimação dos gatos daquela região. Implícito que aliado a fatores socioeconômicos, mas, de verdad, ainda havia espaço pra esse tipo de romantismo fantástico naqueles dias.
Tempos depois, incontáveis buscas, foi encontrado o corpo de uma mulher com aparentes sete décadas e alguns anos, de traços bonitos e conservados, numa pequena casa de madeira com lascas azuis descascando no alto da colina. Os relatos, que seja dito um tanto confusos, apontam para um infarte fulminante. O médico legista – um dr. que sobreviveu, viveu e nunca esqueceu do dia em que foi atropelado pela moça – morreu de desgosto uma semana depois de aprontar o laudo. Ficou completamente chocado com o fato. Não foi encontrada a carta de motorista da mulher ou qualquer outro documento. Foi enterrada com honrarias de santa, mas ainda não tinha nome: por bem chamaram-na de Penélope.
Ps: Todos os gatos, questionados sobre a primeira impressão que tiveram da moça, responderam unanimemente “uma imagem marcante”.