Infância revisitada.

 

Esta terrível o tempo, precisa ver a tempestade. O céu encoberto, cinzento e os pingos pesados que se esborracham como vento quebrando no rosto. As folhas voam pelos paralelepipedos, os sacos de plástico se debatem contra a guia e as árvores dançam desajeitadas. Pode-se sentir o cheiro da chuva, escutar o barulho dos raios. Trovoada, um brilho azulado corta o céu.

 

Eu olhava pela janela vendo as pessoas enxarcadas se recolherem pra dentro de casa. Cobertas de sobretudos e agasalhos emborrachados, um pouco assustadas com o fenômeno. E continuava vendo, fascinado, a chuva correr rua abaixo me levando consigo. Pensava, mas quase não pensava direito, no que havia acontecido. Um dia que nem choveu, fez até calor demais, mas levou tudo embora... Tentei, como muitos tentam sem sucesso, me agarrar a arvores e postes pra não ser tragado pela rajada de vento que surgiria a seguir, mas não consegui. A chuva levou todos os brinquedos do jardim, transformou o solo em barro e só pude ver daqui pela janela. Fechei os olhos e escutei, quase sorrindo, um choro íntimo. Não sabia mesmo se o ouvia - vinha e desaparecia – fiquei assustado. Olhei pela janela e a gangorra, toda desmiuçada, rasgava o céu: era feita de fatias de madeira amarradas com uma corda branca, fora uma gangorra e agora voa se debatendo contra o solo; pedaços de madeira despedaçados. O garoto que com poucos impulsos chegava até o galho mais alto e voltava ao solo num piscar de olhos vai se esborrachar.

 

Tentei me abraçar a mamãe e ela disse pra que eu não ficasse triste, mas se quisesse podia chorar. Eu tentei, mas não pude: engoli seco meu choro e me quedei duro como pedra. Estava péssimo, mas não com o mundo, comigo mesmo. Não sabia se queria gritar ou ficar quieto e o fato é que continuava na janela vendo o tempo passar. Solucei, um suspiro me cortou a garganta, e essa lembrança sempre volta nos dias de chuva. Mamãe diz que é por isso que acordo tarde, entro no quarto e vou a abraçar. Ela sabe que nunca pude lhe dizer o que me havia acontecido, mas ela entende sabe? Me olha com ternura. E cochicha pras amigas, quando pensa que estou longe, que pareço um pouco catatônico. Fico ouvindo por de trás da porta e não dou importância, ela tem uma certa razão. Passivo, o tempo passa mais rápido. Vai ver que é essa melodia que eu ouço, bonita, que me acalma. E assim posso sonhar, aqui pela janela.

 

 



Escrito por Bruno F. Goldgrub às 20h07
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